sábado, enero 27, 2007

História brasileira em risco

Em pesquisa inédita, bibliotecário Cristian Santos analisa arquivos de quatro séculos, que estão sob custódia da Igreja Católica



Estagiária da UnB Agência

O bibliotecário Cristian José Oliveira Santos, 29 anos, terminou o ano de 2006 com uma surpresa agradável. Sua dissertação de mestrado foi o único trabalho brasileiro contemplado na primeira edição do concurso Latino Americano de Investigación em Bibliotecología, Documentación, Archivistica y Museología Fernando Baéz, na Argentina, que visa a premiar os melhores trabalhos na área de Ciência da Informação e Documentação. "Pelo fato de eu ter apresentado meus ensaios em português, achei que minhas chances fossem menores. Foi uma surpresa fantástica quando vi meu nome entre os agraciados", afirma Cristian.

Santos diz que situação dos documentos é calamitosa
Defendida em julho de 2005, sob a orientação da professora do Departamento de Ciência da Informação e Documentação (CID) da Universidade de Brasília (UnB), Georgete Medleg, a dissertação de Cristian ganhou destaque por investigar a conservação de documentos brasileiros produzidos e guardados pela Igreja Católica na época do regime de padroado (1551-1854). O diagnóstico a que ele chegou é preocupante: de maneira geral, os papéis que contam quatro séculos de história da sociedade civil e religiosa brasileira estão em situação de calamidade.
"Meu interesse pelo assunto surgiu em 2002, quando li um artigo do padre Jamil Nassi Abibib, que palestrou sobre os problemas dos arquivos eclesiásticos da Igreja Católica em uma mesa-redonda no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. Entrei em contato com ele e descobri que ninguém havia feito uma pesquisa nesse sentido", relembra Cristian. A intenção do trabalho desenvolvido, explica, é sensibilizar as autoridades e auxiliá-las na preservação desse patrimônio cultural. "Se perdermos esses registros, perderemos parte da nossa história para sempre", diz o pesquisador.
METODOLOGIA - Durante o período do padroado, entre 1551 e 1854, foram criados 11 arquivos das primeiras prelazias e dioceses brasileiras. São atas de óbito, certidões de batismo e casamento, atas das irmandades, documentos de propriedade de terra, entre outros. Todos importantes para qualquer pesquisa sobre o século XVII, por exemplo. "Se alguém quiser saber do que as pessoas morriam naquela época, precisará necessariamente ter acesso a esses arquivos", afirma Cristian. Com isso, sua pesquisa foi voltada para essa época, quando ainda não existiam cartórios e todos os documentos civis eram produzidos em série e ficavam guardados nas dioceses.
Até hoje esses arquivos estão sob custódia da Igreja Católica, nas cidades de Goiás (GO), Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Olinda (PE), São Luís (MA), Belém (PA), São Paulo (SP), Mariana (MG), Cuiabá (MT), Porto Alegre (RS), Diamantina (MG). Desse universo, oito responderam à pesquisa de Cristian (menos Rio de janeiro, Belém e Olinda), que partiu de questionários. Ele ainda fez um diagnóstico in loco em Goiás, onde também realizou entrevistas.
Dentre os quesitos levantados durante a investigação, Cristian Santos conta que procurou abordar aspectos importantes, como as características dos documentos, se são encadernados, se foram descartados e substituídos; a estrutura física do prédio que comporta os arquivos - se foi construído especificamente para essa finalidade, se apresenta medidas contra incêndio, ambiente ideal em termos de umidade e temperatura. Ele avaliou ainda quem são as pessoas que cuidam dos documentos, se são arquivistas ou têm alguma formação dirigida à conservação adequada dos mesmos.

Pesquisador sugere medidas para preservar o patrimônio

RESULTADOS - Dos vários problemas encontrados, a pesquisa revelou que 100% dos arquivos não estão conservados na temperatura e umidade ideais e apenas dois estão protegidos contra incêndio (Salvador e São Paulo). Nenhum deles apresentam condições adequadas para realização de pesquisas por estudiosos, ou seja, não são organizados por catálogos; nenhum dos prédios foi construído especificamente para receber os documentos e, com exceção da cidade de Mariana (MG), os demais não contam com quadro fixo de profissionais da área de Arquivologia. "Os problemas são muitos, a situação é calamitosa", revela o bibliotecário. Ele critica a Igreja Católica brasileira ao afirmar que ela não se mostra preocupada com a conservação desse patrimônio.
Para solucionar os problemas apontados, o pesquisador faz algumas recomendações e afirma que não são as únicas medidas que devem ser tomadas pelo Estado em parceria com a Igreja Católica, mas que são as emergenciais. Entre elas, Cristian sugere a criação de um órgão central permanente que seja responsável por definir uma política adequada para esses arquivos, prestando um serviço de assessoria. "Isso uniformizaria a coleta, a conservação, o tratamento e o uso desses fundos documentais", explica.
Além disso, sugere a criação de um regulamento interno que defina como esses arquivos serão guardados, onde eles ficarão, quem cuidará deles, e assim por diante. Por fim, o que ele acredita ser o mais importante: estabelecer critérios mínimos para processar as informações arquivísticas, ou seja, criar um padrão de identificação bibliográfica a eles, palavras chaves, assuntos abordados e tipologia, por exemplo. "Isso permitirá o intercâmbio dessas informações entre entidades, instituições de ensino e outros", conclui.




SAIBA MAIS SOBRE O CONCURSO

O concurso Latino Americano de Investigación em Bibliotecología, Documentación, Archivistica y Museología Fernando Baéz foi criado em homenagem a esse investigador e bibliotecário venezuelano, tradutor do grego, que é mundialmente conhecido por seus trabalhos sobre destruição de documentos. Sua publicação mais recente, em 2004, foi o livro História Universal da Destruição dos Livros, que denuncia o extermínio de arquivos em bibliotecas no Iraque, em 2003, ao comando das tropas invasoras dirigidas pelos Estados Unidos. Após a publicação da obra, Báez foi declarado pelas autoridades americanas como "persona no grata".
Em 2006, foi a primeira edição do concurso, que tem por objetivo contemplar ensaios na área da ciência da informação e documentação para dois participantes das três categorias existentes. São elas: Profissionais (graduados em Biblioteconomia, Arquivologia, Museologia ou Ciência da Informação); Estudantes (alunos das mesmas áreas que estudam em universidades latino-americanas) e Independentes (pesquisadores nessas áreas que sejam independentes, ou seja, não tenham vínculos com nenhuma universidade). Santos foi agraciado na categoria A: "Isso traz reconhecimento e credibilidade ao meu trabalho", comemora.
O prêmio consiste na publicação dos trabalhos escolhidos pelas editoras argentinas Eudeba e Nuevo Parhadigma e no recebimento de livros, relacionados à biblioteconomia, dessas empresas. A iniciativa é do governo Argentino, que conta com o apoio da Comissão de Homenagem Permanente aos Trabalhadores de Bibliotecas Vítimas do Terrorismo de Estado, da Biblioteca Popular Cuidad Jardín, do Centro Argentino de Informação Científica e Tecnológica (CAICYT), da Biblioteca Nacional da Argentina, da Secretaria de Direitos Humanos e de Cultura e da Embaixada da Venezuela.

3 comentarios:

el ocaso de los dioses dijo...

no me podria comparar con un maestro del arte literario, pero intento plasmar algo ene stas paginas visita mis paginas pero en especial "mirada"

Anónimo dijo...

Obrigado...!
Flavio

Anónimo dijo...

Alguien sabe cuando aparecen estos ensayos ganadores publicados en Argentina?
Daniel